Tinha prometido que a continuação da minha Gazeta primaveril era não iria demorar a aparecer, o que, em linguagem thalassiana, podia querer dizer duas semanas, dois meses, dois anos, ou nunca, em função das turbulências filosófico--psicológicas que fosse preciso atravessar entretanto. Aparentemente, o céu esteve límpido. A minha prosa não está muito atrasada. Não demais…

Pois, tínhamos ficado na celulite. Assunto inesgotável. E particularmente difícil de se definir. Daí que vou começar por um exercício que é para mim bastante inusitado. Em vez de me alongar, discorrer, divagar infinitamente, vou tentar propor a definição mais sintética do fenómeno. A celulite representa o conjunto das consequências de uma insuficiência circulatória a nível do tecido adiposo superficial. Frase misteriosa… merece algum desenvolvimento. Voltemos atrás no tempo. Nas origens, existia o jardim do Éden. Adão e Eva viviam em paz, nus, despreocupados e felizes. Pena era que um espectáculo como esse não tivesse público. Foi o que facilitou muito a tarefa da serpente. Esta ofereceu a maçã da tentação a Eva, e a partir daí tudo foi de mal a pior. Yahweh expulsou o casal do Paraíso terrestre. Disse a Adão: “Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto”. Disse a Eva: “Terás celulite”.

Tudo isto para dizer que esta patologia está, de uma certa forma, inscrita no código genético feminino.

Tentámos reencontrar os protagonistas desta muito antiga história. Adão e Eva continuam, de uma certa forma, a agitarem-se em nós. A maçã tornou-se o símbolo de todos os nutricionistas do planeta. Quanto à serpente, ela enrola-se à volta de uma coluna sobre o logotipo da Clínica Thalassa. Isto quanto à perspectiva criacionista.

Do ponto de vista evolucionista, poderíamos contar as coisas da forma que se segue. Nas origens havia a gordura superficial. Ao nível dos membros inferiores femininos, da Eva ou dalguma das suas descendentes, essa gordura era fina, e uma rede vascular de boa qualidade irrigava-a na totalidade. Depois apareceu a época conturbada da adolescência. A actividade hormonal fez com que o tecido subcutâneo se tornou mais espesso. A circulação quer arteriovenosa quer linfática, comprimida pelo tecido adiposo ao redor, ficou mais difícil. Apareceram vários distúrbios. Em primeiro lugar, os tecidos ficaram muito menos oxigenados. Seguidamente, os produtos nocivos do metabolismo celular, os terríveis radicais livres, acumularam-se no meio extracelular, resultante da má drenagem linfática e venosa, podendo assim, a seu belo prazer, exercer os seus efeitos destruidores nas estruturas biológicas que os envolviam: membranas celulares, fibras de colagénio e de elastina, proteoglicano da matriz, moléculas de ácido hialurónico. A reação inflamatória era inevitável. Tal explicava as pernas pesadas, um pouco doridas, nos finais de tarde difíceis, principalmente no verão, nas noites de grandes edemas.

Essa inflamação crónica cicatrizava de uma forma igualmente crónica, por pequena fibrose retráctil. Estava tudo pronto para o levantar do pano na cena principal, aquela para a qual convergiam todos os elementos do drama.

Foi assim que apareceu a pele casca de laranja, paradigma das manifestações clínicas da celulite, dosagem subtil de hipoxia tissular, de edema, de inflamação crónica e de fibrose cicatricial difusa.

Logo que se instalou nas partes carnudas da anatomia feminina, foi preciso aprender a geri-la.

Houve a fase entusiasta, sacralisadora, que atingiu o apogeu com as vénus calipígias pré-históricas, e os seus últimos arrufos com as Flamencas generosas de Rubens.

Houve a fase da ignorância total, um tanto ou quanto medieval.” Esqueça todas essas tolices, amada minha, e venha esfregar-se à minha pele”.

Houve a fase do faz-de-conta. “ É mesmo, querida, não percebo do que é que estás a falar. Casca de laranja? Para quê? É uma receita nova?”

E finalmente, cansada de guerra, a fase da aceitação daquilo que é visto como um drama, principalmente pelas mulheres. “Ok, vamos lá ver o que se pode fazer”.

E, realmente, o que podemos fazer contra a celulite?

Em primeiro lugar, é preciso fazer com que as pacientes recuperem o seu peso normal, se for o caso, e que a espessura do panículo adiposo superficial diminua.

É também tanto ou mais importante melhorar a microcirculação e a drenagem linfática a esse nível. Depois tentaremos “romper” um pouco a fibrose retráctil e tonificar a pele.

Programa vasto. Quais são as nossas armas?

A primeira, a mais antiga, é a mesoterapia. Já falámos desse tratamento na primeira parte desta gazeta. As suas propriedades lipolíticas fazem que seja um tratamento de escolha nos processos de emagrecimento. Mas não nos esqueçamos que é também um estimulante vascular, e daí que esteja na primeira linha de combate contra a celulite. Esta ação analéptica circulatória é aliás completada por propriedades drenantes deveras interessantes e propriedades tonificantes cutâneas que não lhes ficam atrás.

 

A segunda arma é a terapia com onda de choque acústica. O efeito benéfico é devido ao impacto mecânico das ondas acústicas no tecido fibro-celulítico. A principal consequência será uma micro-destruição da fibrose cicatricial responsável pela casca de laranja. Além de que se verifica uma melhoria da microcirculação.

Na mesma altura, é induzido um estresse mecânico dos fibroblastos dérmicos e hipodérmicos, que vão reagir aumentando a secreção de colagénio.

Haverá sempre portanto, no total, um efeito alisador e um efeito tonificante.

 

A par destes dois tratamentos principais, existe uma panóplia de terapias complementares que nos vão permitir uma ação sobre este ou aquele aspeto mais específico do problema.

 

A radiofrequência e a carboxiterapia vão assim agir no sentido de um aumento da tonicidade cutânea (com uma menção especial para os efeitos circulatórios da carboxiterapia), em quanto que a endermologia (LPG) e a drenagem linfática manual permitem lutar contra a retenção de líquidos.

Esta lista não é exaustiva. Claro está que a Thalassa não dispõe de todos os tratamentos existentes. É preciso deixar alguns para os outros. O Velashape, o Velasmooth, e certos tratamentos com infravermelhos parecem ser complementos interessantes.

Mas continuo a pensar que a dualidade mesoterapia/ondas acústicas continua a ser o dragão bicéfalo da luta contra a celulite.

 

Então, no final das contas, o que pensar desta patologia? Maldição biológica? Hormonal? Restos do pecado original? Necessário tributo a pagar pelo privilégio de carregar dentro de si uma criança?

Certamente um pouco de tudo isso ao mesmo tempo. Mas, na minha opinião, a celulite é principalmente o mais belo presente oferecido por Deus às Clínicas de Medicina Estética.

Imaginem uma desgraça que, em graus diversos (indo da celulite imaginária à celulite de grau IV) afecta todas as mulheres, que se agrava quando o peso aumenta, melhora quando efectuamos os devidos tratamentos, que volta a aparecer quando paramos esses mesmos tratamentos, e, por isso mesmo, nos liga às nossas pacientes muito mais fortemente que todos os laços de afeição. Haverá sonho melhor?